Pela janela do seu quarto, Cora Coralina podia se ver dentro de uma pintura. Quando olhava para dentro de casa, porém, enxergava preconceito. Foi o lado de fora, então, que Cora escolheu para viver. Com seu jeito simples, descreveu o que estava ao alcance de seus olhos sensíveis, como o rio vermelho, vidraça do céu.
Doceira. Era assim que gostava de ser conhecida. O que Cora não percebia é que fazia doce tanto para o deleite do corpo quanto da alma. Os traços de suas rugas eram tão fortes e tão expressivos em seu rosto que revelavam a inquietude de seus pensamentos.
Suas palavras eram tantas que aos poucos Cora foi perdendo o ar até ele acabar de vez. Para muitos, Cora só viveu depois de sua morte. Até então sua existência era quase desconhecida. No dia em que seu corpo foi enterrado, apenas as poesias lhe fizeram companhia.



