Casa da Cora Coralina (Foto: Giulia Batelli)

Pela janela do seu quarto, Cora Coralina podia se ver dentro de uma pintura. Quando olhava para dentro de casa, porém, enxergava preconceito. Foi o lado de fora, então, que Cora escolheu para viver.  Com seu jeito simples, descreveu o que estava ao alcance de seus olhos sensíveis, como o rio vermelho, vidraça do céu.

Doceira. Era assim que gostava de ser conhecida. O que Cora não percebia é que fazia doce tanto para o deleite do corpo quanto da alma. Os traços de suas rugas eram tão fortes e tão expressivos em seu rosto que revelavam a inquietude de seus pensamentos.

Suas palavras eram tantas que aos poucos Cora foi perdendo o ar até ele acabar de vez. Para muitos, Cora só viveu depois de sua morte. Até então sua existência era quase desconhecida. No dia em que seu corpo foi enterrado, apenas as poesias lhe fizeram companhia.

“Lixeiros”

Quem são as pessoas que coletam o seu lixo e quais são os riscos que elas correm

Correndo atrás do caminhão e segurando sacos de lixo, Paulo Gonçalves, 33, pulou no estribo cheio de cascas de banana e escorregou. Se em desenho animado essa cena só rende risada, na vida real rendeu a Paulo 11 dias de atestado pela sua perna machucada. Acidente é o que não falta na corrida diária da coleta de lixo em Brasília. O coletor Wellington Silva, 32, afirma que quem trabalha na coleta vive tenso, “ porque é um trabalho perigoso. (O profissional) tem que ter coragem” e tem que estar precisando muito de dinheiro, garante.

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De braços abertos

Sempre imaginei que intensas mudanças internas fossem coisas de jovens e que velhos teriam aprendido a ter domínio daquilo que é e pensa. Sabia que aquelas carinhas enrugadas mostravam que a vida não era fácil e indicavam que eu me tornaria uma pessoa bem diferente daquela que fui quando nasci. Pelo menos, minha avó passava a impressão de que a velhice era a fase mais calma da vida. Só agora, nos meus 95 anos, que acho que ela deveria ter sido assim a vida toda e que eu perdi a explicação para isso. Porquê de calmo, essa porra não tem nada.

Cansei de dizer aos empacotadores de supermercado que não juntassem produtos de limpeza com os de cozinha. Também, nem falo mais algo quando alguém me pede dinheiro na rua. Quando eu tenho, eu dou. Não fico desfiando horas e horas o discurso de que ele (ou ela) tem saúde para conseguir um emprego, mesmo que seja meia boca. E que tem muita gente que saiu do asfalto e foi parar no arranha céu.

Já estou saturado com o que tem passado na televisão. Tanto os programas quanto os noticiários parecem ter um número bem limitado de edições que ficam alternando durante o ano. Além do que, os produtos televisivos parecem estar divididos entre “o que a gente vive” e “o que a gente gostaria de viver.” Isso tudo me traz uma grande irritação.

Nem ir a restaurante eu vou. Os cozinheiros não usam luvas. Os atendentes têm memória curta. O caixa sempre tem o valor menor do que o troco que eu preciso. O ar-condicionado está sempre em baixíssima temperatura, a ponto de me encaminhar uma gripe no momento em que eu garfo, pela primeira vez, a comida que fica gelada no trajeto do prato à boca.

Entretanto, o bom é que eu posso ter longas conversas com jovens bonitas sem ser enxotado logo de cara por nunca considerarem as minhas intenções como segundas. E o fantástico de chegar nessa idade é poder libertar todos os segredos que a gente carrega durante a vida. Percebi que fui mais feliz criança porquê não achava que as pessoas poderiam pensar mal de mim por algo que eu podia fazer e falar. Fiquei despudorado quando aposentei o filtro.

De qualquer forma, agora, no hospital, sinto que o cotidiano não deveria ter esse gosto de comida sem sabor ou vir com um sabor mais forte do que o nosso paladar aprecia.

Percebo que as pessoas subestimam os meus problemas só porquê estou mais velho. Como se eu tivesse desaprendido a suportar os problemas da vida. Todo mundo sempre critica, mas nunca sabem o que se passa, de fato, com a gente. Só eu sei que em 95 anos cabe muita vida. Não espero que me entendam por eu querer sentir algo novo. Algo que eu não tenha sentido durante esse tempo. Quero sentir a paz que minha avó sentia em vida. Um vento no rosto, um espírito mais leve e os braços a alçar o vôo.

Crônica sobre o fato do cineasta italiano Mario Monicelli ter se suicidado aos 95 anos. Monicelli estava em fase terminal em decorrência de um câncer de próstata e pulou da janela do quarto andar do hospital em que estava internado.

Uma simples homenagem.

O doentio gosto pelo jornalismo

O sentimento de orgulho e vitória se esgota rápido. Logo temos que arregaçar a manga e trabalhar novamente. Mas é o tipo de sentimento que a gente se vicia e fica recordando enquanto pensa nos deveres reservados para o dia.

Talvez em qualquer outra profissão a sensação se prolongue, chegando a durar alguns meses, mas para jornalistas é a mesma duração de uma notícia. Todos os dias os repórteres vão à rua para buscar as notícias e voltam à redação para redigi-la. Se bem feita, o rosto esquenta quando percebemos que cumprimos a nossa função. É como entrar em um banho quente após um dia frio. Depois de uma longa apuração, o texto pronto somado aos elogios do chefe incita êxtase. Vem um arrepio de alívio. Isto até me lembra uma parte do livro do Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.  Em que é descrita a sensação de tirar os sapatos apertados no fim do dia. O alívio ao tirar é tão gostoso, que Brás Cubas usa sapatos pequenos.

  Meu sapato pequeno seria a escolha da profissão de jornalista. O tempo aperta e eu não tenho espaço para fazer muita coisa. Posso apenas fazer o básico, aquilo que me permite ficar equilibrada. Reduzo e encolho as minhas (não tão) pequenas atividades supérfluas. Aliás, quando me permito pôr um chinelo, a satisfação é ainda maior do que se o usasse cotidianamente. Acaba que além de todo o alívio e satisfação, traz vida aos dias. É mais uma forma de se sentir vivo.

Um fim inesperado

Ao ler um livro da Agatha Christie, o leitor se propõe a descobrir o criminoso apenas nas últimas páginas. Por mais

Capa do livro "O Visitante Inesperado"

 que, passados uns capítulos, se faça uma leve ideia de quem possa ser, o fim é sempre surpreendente.

Impressionante é ler o livro “O Visitante Inesperado”. Escrita como peça teatral por Agatha e transformada em romance por Charles Osborne, biografo de Agatha, a narrativa juntou o melhor dos dois gêneros. Tem a dinâmica de uma peça, porém com descrições que aumentam o mistério, característico de um romance policial.

A história se inicia com o Michael Starkwedder atolando o carro em frente a uma mansão. Quando bate à porta da casa para pedir ajuda, encontra o corpo de Robert Warwick. Após um tempo, percebe uma mulher estática segurando uma arma. Starkwedder, sentindo a agitação da possibilidade de agir como detetive, mesmo que amador, a questiona sobre o assassinato. Ele a ajuda a incriminar uma outra pessoa e descobre que ela não foi a responsável. A partir deste novo fato, o visitante inesperado vai perpassando sua lanterna inquisidora  por cada personagem a fim de descobrir o verdadeiro assassino. Como era de se esperar de uma história da Agatha, o final é muito bem articulado, muito inteligente e faz o leitor se sentir satisfeito com a resolução do caso.

De quando eu comecei a ler

Sempre li muito pouco. Até gostava da sensação quando terminava um livro, mas a preguiça era maior do que o meu interesse. Infelizmente.

No meu aniversário de 18 anos (agora eu estou a dois meses de completar 20 anos) ganhei de uma grande amiga o gosto pela leitura. Ela não só me deu um livro, como ela me presenteou com a insaciabilidade pelos livros.

As folhas (assim que eu ganhei, eu notei) tinham um cheiro adocicado como em nenhum outro livro. Minha amiga jurou não ter passado nenhuma colônia. Mas eu sentia um perfume nele. Parecia que o conteúdo do livro exalava este cheiro. Eu gosto de pensar assim. Nem tenho dúvida quanto a suavidade e a agradabilidade que têm nas palavras como em seu perfume.

Eu ficava com medo do cheiro se perder e ficar com um cheiro de livro normal. Este livro, definitivamente,  não é normal.

Hoje, eu não o deixo em um canto especial na minha prateleira. Ele ficou lá por muito tempo. Emprestei uma vez. O cheiro permaneceu. E, assim, fui emprestando. A quem eu o emprestava, eu via a força do contágio. As pessoas, verdadeiramente, liam mais e o perfume resistia.

Me senti fundadora de uma religião. Difundindo a palavra de alguém e dizendo que fui curada. A minha preguiça se esvaiu totalmente. Vejam. Leia você também e nunca mais verá a sua mente acomodar.

Fico imaginando se quando a minha amiga me deu o livro ela previu o que ele viria a provocar nas pessoas. Com certeza, eu não havia previsto.

Quanto ao cheiro, eu não fui a única que notei. Outras pessoas notaram quando leram. E não tenho mais medo de que ele se perca. Ele cumpriu a sua função.

Ah, o livro… É o “A Vaca e o Hipogrifo” do Mario Quintana.

Depoimentos de seis hibakushas descritos com sensibilidade e riqueza de detalhes

O texto de Hersey apresenta sensibilidade nas descrições mais intensas

Hiroshima – 42 reais, Companhia das Letras, 172 páginas – não é que nem a maioria dos livros pós-guerra que relata mais a política da época do que o sofrimento obtido pelas sociedades. O autor chinês John Hersey foca a história de seis pessoas antes, no momento e depois da explosão da bomba atômica na cidade japonesa Hiroshima. O leitor pode acompanhar momentos duros aos quais os hibakushas, pessoas afetadas pela explosão, se viram passar.

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Download de músicas é crime?

As mudanças que a música digital está gerando na cultura, na economia, na legislação, e na forma de pensar das pessoas

por Giulia Batelli e Liz Mendes

A cena é cotidiana: uma pessoa liga o computador, acessa a internet e, enquanto navega, “baixa” a nova música daquele artista que está em todas paradas de sucesso. Em seguida, transfere o arquivo para o mp3 player. Dificilmente ela pensará em quem ganha e quem perde com o que acabou de fazer, ou estará preocupada com uma batida policial.

Este comportamento se deve ao fato de que o Brasil, diferentemente de outros países, não possui leis que definam até que ponto o download deve ser considerado pirataria. Inclusive, este é um conceito que divide opiniões. “Se pirataria é caracterizada como a cópia de arquivo, a internet é puramente pirata. Ela nada mais é do que uma cópia de arquivos: a cada vez que você abre uma tela, ela tá copiando pro computador todos aqueles arquivos que tão em um outro lugar, armazenados”, explica o baixista da banda Móveis Coloniais de Acaju, Fábio Pedroza.

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Eis o Quem do José

Era tudo tão novo para José, que ele nem conseguia dizer se essa novidade era boa ou não. Estava só cumprindo seu papel, fazendo o seu trabalho tão pequeno. Pequeno não para ele, que ao anoitecer estava exausto, pequeno para quem via a obra pela porta afora. Um trabalho que o fazia acreditar que qualquer outra pessoa poderia substituí-lo mais cedo ou mais tarde.

O pensamento de ser substituível, apesar de lhe trazer angústia, não o deteve, não o fez perder o gás para trabalhar. Não tinha tempo de polir sua vaidade que, de tão pequena, parecia não existir.

Um projeto tão grande que estava se concluindo, e o excluindo do mérito. O nome do arquiteto ninguém esquece, mas o nome de José não há quem saiba. José quem? O José que passou argamassa nos tijolos, que cimentou a parede.  Aquele que dormia dentro do carrinho de mão no horário de almoço. O José que trabalhava assoviando as músicas do Roberto Carlos. E tornam a perguntar: José quem? Não importa que as pessoas o desconheçam. José Quem não só construiu com zelo, mas deixou sua marca de carinho na obra que tanto lhe deu orgulho por ter participado. José está cravado no coração do prédio. José Quem acabou se pintando da mesma cor da parede, de forma que ninguém nunca mais o viu.

O que José ignorou é que mesmo sendo anônimo ninguém lhe tirará sua importância. Não é nenhum outro nome que está ali, a não ser o dele.

50 anos depois, em que é preciso fazer uma reforma, o José se revela, cria curiosidade a respeito de seu nome escrito no pilar e, finalmente, sai do anonimato. José, um dos milhares que ajudou a erguer a capital. Porém o único a marcar para os outros a sua história.

~>O Ministério do Meio Ambiente fez uma reforma em Abril de 2010, e foi encontrado o nome José em um dos pilares.

Nenhum som chega aos seus ouvidos. Como se alguma barreira invisível os cobrisse completamente. Fica a perceber as ondas em seu copo de água, desenhadas pelo agudo da voz da palestrante. Lhe apetece o detalhe. É o detalhe que lhe prende a atenção. Fica pensando o quanto as pessoas esquecem que a água se molda a partir das palavras. O que a voz aguda diz é menos importante do que a reação que ela gerará nas coisas e nas pessoas, pensa ele.

O peso da platéia veio, assumidamente, só para vê-lo. Não há vaidade e nem arrogância no que fala. A brancura do seu cabelo revela a clareza de suas ideias. Sua paz interior se mostra no seu tom de voz e no ritmo de sua fala. Tem um olhar atento, mas que divaga.

Imerso em pensamentos, fecha os olhos. Perde o controle do corpo. Sua cabeça pesa para frente. Quem dorme é o Leonardo, porém o Boff está sempre desperto para a vida.

->Crônica sobre o fato do Leonardo Boff ter, simpaticamente, dormido durante uma palestra do longo seminário Água e Cidadania, realizado em Brasília no último dia 23.